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Lisboa Reflex

Lisboa em imagens e palavras, entre outras obsessões

Lisboa em imagens e palavras, entre outras obsessões

Lisboa Reflex

19
Jun18

As Sardas do Seu Rosto Pareceram Cintilar *

Este período do café na esplanada e dos passeios à noite pelo bairro durou uns três ou quatro meses. Numa certa noite, regressávamos nós a casa, quando, de repente, começou a chover intensamente. Encontrando-nos ainda ao cimo da rua onde Maria morava, corremos para nos abrigarmos no acesso à Vila Berta, uma espécie de túnel por baixo de um prédio que dava acesso a um dos locais mais pitorescos do bairro. E foi ali que nos beijámos pela primeira vez, misturando a água fria da chuva que nos escorria pelo rosto com a saliva quente que ansiava pelo outro. Não sei se foi devido a algum reflexo no rosto molhado de Maria, mas até as sardas do seu rosto pareceram cintilar. Ficámos ali, beijando-nos sem parar, como se nos quiséssemos vingar das hesitações anteriores. Não tenho a certeza se nos parámos de beijar quando parou de chover ou se foi ao contrário. Acompanhei Maria até à entrada do prédio onde morava e, ao despedirmo-nos, ela sorriu e disse-me:

- Nunca mais nos vamos beijar pela primeira vez. Mas também não viveremos mais nenhum dia sem recordarmos esse momento. Prometo!

Sem me dizer mais nada, sorriu, fez-me uma festa no cabelo, virou-me as costas e subiu.

 

* Excerto de livro embrionário

15
Jun18

Caminhar por Lisboa

Regularmente, opto por regressar do trabalho para casa a pé, percorrendo em cerca de uma hora a distância que separa Sete Rios da Penha de França. Tento sempre variar o trajecto, percorrendo assim artérias diferentes de cada uma das vezes, o que me dá uma perspectiva completamente diferente da cidade daquela que se obtém de carro ou de transportes públicos. Tenho por hábito fazer longas caminhadas pela cidade, de câmara fotográfica na mão, mas desta vez, ao cruzar a pé, já pela noite dentro, a zona da Praça de Espanha, infelizmente, não a levava comigo. Fiquei impressionado com a diferença de percepção que se tem ao olhar à volta e ver todo o espaço de ângulos únicos e completamente inacessíveis a quem por lá passa habitualmente de carro. É realmente impressionante e prometi a mim mesmo que muito em breve terei que explorar fotograficamente aquela zona.

Muitas vezes, os afazeres domésticos e profissionais impedem-nos de programar convenientemente caminhadas por zonas quiçá mais aprazíveis, pelo campo, serra ou junto ao mar. Contudo, para quem vive em Lisboa (ou em qualquer outro local), conhecer ou redescobrir a cidade a pé pode ser uma excelente forma de exercício físico e cultural. As caminhadas, mesmo em circuito urbano, podem-se transformar em excelentes momentos de prazer e descoberta, para além do facto de serem uma forma extremamente económica de passar algum tempo de qualidade enquanto se faz algum exercício físico. Fica o desafio.

13
Jun18

Fotografia - Editar ou não editar

Embora seja boa prática tentar obter o melhor resultado possível no acto de fotografar, muitas vezes tal não é viável devido a constrangimentos técnicos - lente fixa inadequada, impossibilidade física de bom posicionamento, má qualidade da luz, entre outros - ou apenas por más opções ou outros constragimentos na hora do disparo. É nestes casos que a edição tem uma palavra a dizer. Eu edito sempre as minhas fotografias, até porque fotografo em formato RAW e este formato não tem como objectivo oferecer uma boa fotografia de raiz, uma vez que a principal função do formato RAW é precisamente recolher o maior número de informação em bruto para poder, á posteriori, ser trabalhada.

Este tipo de edição implica o balanço de cores e luminosidade, correcção de distorção e aberrações cromáticas das lentes e, muitas vezes, o reenquadramento (cropping) e nivelamento da linha do horizonte, sempre que se justifique.

Para exemplificar, junto duas versões da mesma foto: a primeira, o original em bruto convertido do RAW, sem qualquer edição. A segunda, uma versão editada e convertida em preto e branco da mesma fotografia. Embora este seja um caso extremo, serve de exemplo para o que é possível e recomendável fazer sempre que esteja em causa a melhoria de qualquer captura de imagem.

Foto original, sem edição e conforme captada em RAW

Foto original, sem edição e conforme captada em RAW 

 

A mesma foto após edição

A mesma foto após edição

 

12
Jun18

Tempo Extra na Estação do Oriente

Quando se tem que "matar tempo" à espera que uma loja abra, nada melhor que ir tirando umas fotos. Foi o que aconteceu recentemente enquanto aguardava pelo início da actividade comercial na Gare do Oriente.

Quem conhece o local sabe que o interior da gare é bastante escuro, pelo que optei por fotografar com ISO automático e com prioridade à abertura. Embora neste tipo de fotos pense sempre no resultado final a preto e branco, desta vez também gostei do resultado a cores em alguns dos casos.

Gare do oriente

 

Gare do Oriente

 

Gare do Oriente

 

Gare do Oriente

 

Gare do Oriente

 

Gare do oriente

 

 

12
Jun18

O limite é a falta de luz

Vulto a sair do Metro

 

Como em todas as artes, também na fotografia existem aqueles que consideram fotografia tudo o que acontece dentro de uns determinados limites estéticos, enquanto que outros consideram que tudo é plausível de se considerar arte desde que o autor o tenha produzido enquanto tal, como forma de uma interpretação ou exposição estética, independentemente do seu grau de inteligibilidade para quem observa a obra.

Por mim, em relação à fotografia, considero que desde que haja luz suficiente para captar uma imagem, temos arte. Contudo, admito que nem todas as opções estéticas daí vindas possam ser interessantes e reconheço a subjectividade do que é ou não é considerado interessante, consoante o observador, o estado de espírito ou a época. É essa maravilhosa subjectividade que nos permite encontrar o belo em tantas formas diferentes de expressão. E, depois, sempre existirão erros felizes que, mais a uns que a outros, mais nuns que noutros, se transformam ora em belo, ora em estranhos monstros. E a única luz de Lisboa faz parte deste todo subjectivo, tornando-o ainda mais irresistivel.

11
Jun18

Fotografia a preto e branco numa Lisboa a cores

Travessa do Rosário de Santa Clara

 

Considero que é através do preto e branco que melhor se relata o essencial do mundo. Para (quase) tudo o que realmente importa, o que merece ser retido ou as memórias que ficam, a cor é dispensável na medida em que distrai e contribui com pouco para a essência de um acto, um momento ou uma memória. Claro que há um sentido estético e de belo derivado e até mesmo inerente à cor, mas raramente esses atributos são importantes para o tipo de fotografia que gosto de fazer, exceptuando a fotografia cinematográfica

É também na fotografia a preto e branco que a componente essencial deste processo - a luz - melhor pode ser trabalhada, contribuindo para um resultado final que pode ser mais dramático, suave, contrastante, luminoso ou emotivo consoante a utilização que se faça da luz e das sombras. Para além disso, ao descartar a cor, eleva-se a composição a um patamar muito mais decisivo na construção de uma boa foto.

Finalmente, há uma sensação de intemporalidade por não sofrer das tendências de cor de cada época, impostas pela tecnologia utilizada ou simplesmente pela moda.

09
Jun18

Aquela noite em Lisboa

Era mais uma noite. Ele sabia, com aquela certeza enfadonha da rotina de tantos anos, que seria apenas mais uma noite. Iria cruzar-se com as mesmas pessoas com que se cruzava há anos, ouvir as mesmas vozes a prestarem-se aos mesmos lamentos de sempre e, na melhor das hipóteses,  vozes diferentes contariam histórias iguais a tantas outras, adulterando-lhes os nomes ou as vítimas.

Contudo, desta vez a rotina iria traí-lo e deixá-lo mais perto de outros hábitos, de outras certezas, de outras noites… Sentiria de novo alguns dos cheiros e das ânsias que o tempo se tinha encarregado de varrer para aquele sítio incerto dentro de nós onde guardamos, com um cuidado assustador, todas as experiências que não temos coragem ou frontalidade de assumir como nossas e como fazedoras de nós. Seria assim aquela noite em Lisboa.

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