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Lisboa Reflex

Lisboa em imagens e palavras, entre outras obsessões

Lisboa em imagens e palavras, entre outras obsessões

Lisboa Reflex

25
Jun18

A Morte Recíproca

Mergulhaste o meu mundo num universo de lacuna
Encharcaste as memórias num sal de gotas por chorar
Perdeste o que me deste uma vez e para sempre
Qual de nós se ocultou entre o cais e tanto mar?

 

Cumpriste o teu tempo como o cheiro a maresia
Navegaste nas areias de um futuro por lembrar
Arrancaste o saber do teu peito contra o mundo
Qual de nós se afundou entre o sol e o luar?

 

O murmúrio do vento traz a cor do desalento
O lamento da luz já não mostra tentação
E os olhos fecham-se num beco de tormento

 

Nunca o mar se gelou como o sangue que me corre
Nestas veias, de medo detém-se meu coração
Qual de nós, então, será que no outro morre?

21
Jun18

Imperfeições

Ainda bem que és imperfeita…

As nossas imperfeições completam-se,
Transformando-nos
Em muito mais do que somos,
Em muito mais do outro…

Prefiro assim,
Imperfeito,
A um perfeito incompleto.

20
Jun18

Saudade é Doer-nos o Tempo

Foi preciso chegar muito perto dos 50 anos para ele saber o que realmente significava saudade. Até a ver partir, ou melhor, até a ver de soslaio a entrar naquele maldito corredor que a levaria à porta de embarque, ele não fazia a mínima ideia, embora pensasse o contrário, do que era sentir saudade; nó na garganta, chorar sem emitir o mais breve som, doer a cabeça, temer em angústia que nunca mais a visse ou, quiçá, simplesmente não conseguir sobreviver a muito mais tempo sem a ver. Saudade, ficou ele a saber, é doer-nos o tempo porque ele se abranda até ao momento do reencontro.

Até lá, ele conta apenas com as ruas de Lisboa para lhe darem sentido à deriva que se instala.

19
Jun18

As Sardas do Seu Rosto Pareceram Cintilar *

Este período do café na esplanada e dos passeios à noite pelo bairro durou uns três ou quatro meses. Numa certa noite, regressávamos nós a casa, quando, de repente, começou a chover intensamente. Encontrando-nos ainda ao cimo da rua onde Maria morava, corremos para nos abrigarmos no acesso à Vila Berta, uma espécie de túnel por baixo de um prédio que dava acesso a um dos locais mais pitorescos do bairro. E foi ali que nos beijámos pela primeira vez, misturando a água fria da chuva que nos escorria pelo rosto com a saliva quente que ansiava pelo outro. Não sei se foi devido a algum reflexo no rosto molhado de Maria, mas até as sardas do seu rosto pareceram cintilar. Ficámos ali, beijando-nos sem parar, como se nos quiséssemos vingar das hesitações anteriores. Não tenho a certeza se nos parámos de beijar quando parou de chover ou se foi ao contrário. Acompanhei Maria até à entrada do prédio onde morava e, ao despedirmo-nos, ela sorriu e disse-me:

- Nunca mais nos vamos beijar pela primeira vez. Mas também não viveremos mais nenhum dia sem recordarmos esse momento. Prometo!

Sem me dizer mais nada, sorriu, fez-me uma festa no cabelo, virou-me as costas e subiu.

 

* Excerto de livro embrionário

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