Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Lisboa Reflex

Lisboa em imagens e palavras, entre outras obsessões

Lisboa em imagens e palavras, entre outras obsessões

Lisboa Reflex

20
Jun18

Saudade é Doer-nos o Tempo

Foi preciso chegar muito perto dos 50 anos para ele saber o que realmente significava saudade. Até a ver partir, ou melhor, até a ver de soslaio a entrar naquele maldito corredor que a levaria à porta de embarque, ele não fazia a mínima ideia, embora pensasse o contrário, do que era sentir saudade; nó na garganta, chorar sem emitir o mais breve som, doer a cabeça, temer em angústia que nunca mais a visse ou, quiçá, simplesmente não conseguir sobreviver a muito mais tempo sem a ver. Saudade, ficou ele a saber, é doer-nos o tempo porque ele se abranda até ao momento do reencontro.

Até lá, ele conta apenas com as ruas de Lisboa para lhe darem sentido à deriva que se instala.

19
Jun18

As Sardas do Seu Rosto Pareceram Cintilar *

Este período do café na esplanada e dos passeios à noite pelo bairro durou uns três ou quatro meses. Numa certa noite, regressávamos nós a casa, quando, de repente, começou a chover intensamente. Encontrando-nos ainda ao cimo da rua onde Maria morava, corremos para nos abrigarmos no acesso à Vila Berta, uma espécie de túnel por baixo de um prédio que dava acesso a um dos locais mais pitorescos do bairro. E foi ali que nos beijámos pela primeira vez, misturando a água fria da chuva que nos escorria pelo rosto com a saliva quente que ansiava pelo outro. Não sei se foi devido a algum reflexo no rosto molhado de Maria, mas até as sardas do seu rosto pareceram cintilar. Ficámos ali, beijando-nos sem parar, como se nos quiséssemos vingar das hesitações anteriores. Não tenho a certeza se nos parámos de beijar quando parou de chover ou se foi ao contrário. Acompanhei Maria até à entrada do prédio onde morava e, ao despedirmo-nos, ela sorriu e disse-me:

- Nunca mais nos vamos beijar pela primeira vez. Mas também não viveremos mais nenhum dia sem recordarmos esse momento. Prometo!

Sem me dizer mais nada, sorriu, fez-me uma festa no cabelo, virou-me as costas e subiu.

 

* Excerto de livro embrionário

15
Jun18

Caminhar por Lisboa

Regularmente, opto por regressar do trabalho para casa a pé, percorrendo em cerca de uma hora a distância que separa Sete Rios da Penha de França. Tento sempre variar o trajecto, percorrendo assim artérias diferentes de cada uma das vezes, o que me dá uma perspectiva completamente diferente da cidade daquela que se obtém de carro ou de transportes públicos. Tenho por hábito fazer longas caminhadas pela cidade, de câmara fotográfica na mão, mas desta vez, ao cruzar a pé, já pela noite dentro, a zona da Praça de Espanha, infelizmente, não a levava comigo. Fiquei impressionado com a diferença de percepção que se tem ao olhar à volta e ver todo o espaço de ângulos únicos e completamente inacessíveis a quem por lá passa habitualmente de carro. É realmente impressionante e prometi a mim mesmo que muito em breve terei que explorar fotograficamente aquela zona.

Muitas vezes, os afazeres domésticos e profissionais impedem-nos de programar convenientemente caminhadas por zonas quiçá mais aprazíveis, pelo campo, serra ou junto ao mar. Contudo, para quem vive em Lisboa (ou em qualquer outro local), conhecer ou redescobrir a cidade a pé pode ser uma excelente forma de exercício físico e cultural. As caminhadas, mesmo em circuito urbano, podem-se transformar em excelentes momentos de prazer e descoberta, para além do facto de serem uma forma extremamente económica de passar algum tempo de qualidade enquanto se faz algum exercício físico. Fica o desafio.

09
Jun18

Aquela noite em Lisboa

Era mais uma noite. Ele sabia, com aquela certeza enfadonha da rotina de tantos anos, que seria apenas mais uma noite. Iria cruzar-se com as mesmas pessoas com que se cruzava há anos, ouvir as mesmas vozes a prestarem-se aos mesmos lamentos de sempre e, na melhor das hipóteses,  vozes diferentes contariam histórias iguais a tantas outras, adulterando-lhes os nomes ou as vítimas.

Contudo, desta vez a rotina iria traí-lo e deixá-lo mais perto de outros hábitos, de outras certezas, de outras noites… Sentiria de novo alguns dos cheiros e das ânsias que o tempo se tinha encarregado de varrer para aquele sítio incerto dentro de nós onde guardamos, com um cuidado assustador, todas as experiências que não temos coragem ou frontalidade de assumir como nossas e como fazedoras de nós. Seria assim aquela noite em Lisboa.

09
Jun18

Nunca neva em Lisboa

Nunca neva em Lisboa.

Podem, que eu já vi, as nuvens ameaçar, mas nevar, não neva. Faz frio, cai granizo, assobia o vento, ronca o céu e encharcam-se as ruas, mas de neve, nada. No entanto, esta cidade é branca. Branca como a virgem, sempre por descobrir, mas, contradição, sempre se mostrando, frágil e desejosa, contudo, esquiva.

Aprende-se a gostar dela, lentamente, enquanto ela se desvenda, aos poucos, sem pressas.

É como as pessoas, trata bem quem a estima, ignora, simplesmente, quem a desdenha.

Lisboa é branca também pelas suas igrejas, pedaços de história, pelos seus passeios e chafarizes e, claro, pela sua alma. Esta cidade tem alma e tem vida porque tem sentimento quem lá vive. As pessoas de Lisboa são, sobretudo, pessoas da sua cidade. Sim, as pessoas são da cidade. A cidade não é de ninguém. Ninguém pode ter Lisboa… a não ser no coração.

Sobre o autor

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.